CRÔNICAS DE MARTHA OLIVAR NO JORNAL O IMPARCIAL

 

 Elma Sueli de Assis – UCSal[1]

 

Os primeiros indícios da sociedade moderna, a partir da década de 1930, não vão apagar as marcas e sim reiterar a domesticidade da mulher.

Mas apesar desse discurso sinuoso, a mulher brasileira ia abrindo trilhas no caminho para sua independência econômica, através do trabalho.

 Ivia Alves

 

Nesta comunicação tentarei analisar as crônicas da jornalista e escritora Martha Olivar, publicadas no jornal O Imparcial, durante o ano de 1932. Este trabalho se insere no projeto de pesquisa “Resgate de textos de escritoras baianas do século XX: percurso intelectual, estudo da produção”, que é orientado pela Profª. Dr.ª Ivia Alves[2].

Na década de trinta, percebe-se um afloramento de novas idéias sobre a condição da mulher que está diretamente articuladas à luta pelo direito ao voto. O movimento que terá como sede o Rio de Janeiro, teve pouca ressonância na cidade de Salvador que ainda não havia sido despertada pela onda feminista do sufrágio universal. Esta onda de idéias que tem sido chamada de primeira onda feminista porque são primeiros grupos empenhados na causa, procurava adequar suas reivindicações, pelo menos no Brasil, aos interesses religiosos e políticos. Nessa década, o feminismo é marcado por condutas que buscavam a igualdade: de direitos ao voto para a mulher, ser incluída no Estado como sujeito civil e político, obtendo seu reconhecimento como cidadã. É dentro dessa luta que se poderá contextualizar os conteúdos das crônicas de Martha Olivar.

Na coluna intitulada “Página Feminina”, do jornal O Imparcial, Martha Olivar mantêm por anos, além de crônicas uma seção de aconselhamento destinada à análise de produções de escritoras iniciantes, sendo que, muitas vezes, chegou a alterar textos, sugerindo mudanças inclusive de pseudônimos e na maioria pedia mais estudo daquelas que queriam continuar na carreira de escritora.

As outras escritoras da “Página”, inicialmente, escreviam poesias, abriam espaço para questionamento sobre a nova moda, mas permaneciam investindo na arte culinária. Poucas vezes encontrava-se um texto de protesto ou de reflexão sobre a condição feminina e seus papéis dentro da sociedade ocidental. Dentro dessa visão, Martha Olivar também começa a lançar no jornal apenas pensamentos, mas a partir do ano de 1932, passa a empregar o formato da crônica, mudando também seu público, que daí em diante será a leitora. Tais crônicas além de informar ou comentar algum acontecimento ou fato, vai-se constituir em uma forma de lazer para a dona de casa, que, dessa maneira, encontrava um espaço de evasão e de instrução dentro do seu próprio espaço, isto é, os domínios do lar.

Fazendo um rápido balanço da produção escrita pela autora no ano de trinta e dois, constatamos que ela se insere no grupo das feministas militantes pelo voto. Sua compreensão do feminismo dá a forma de argumentação clara com a qual ela investe contra os segmentos conservadores da Bahia. A sociedade via, segundo Olivar, a luta da mulher como “Qualquer coisa sendo de cunho feminista teria que ser feio, duro e hostil”. Ela combate esse imaginário enfatizando que não vê nenhum impedimento entre o casamento e a mulher se instruir e mesmo trabalhar. E também, que Ter tais idéias não leva a mulher a se masculinizar.

Em uma crônica do referido ano, a autora dá sua opinião, divulgando a luta feminista de então:

E de tal sorte se pode ver que o feminismo não renega os atrativos na beleza que enfeita a vida.

 

Não (des)cura os interesses da família, que santifica o afeto...

Tempo houve em que era comum pensar-se que a mulher na sociedade era como uma palha na embalagem da louça, a que ninguém dava importância

Mas sem a qual tudo se quebraria.

Conceitos revelhos predestinados flui como as fortalezas da inverdade... Porque se os homens são louças, temos que retempera-los nos altos fornos da moral para que, aos embates da vida não ande a carecer da palha humana...

Conclusão: o homem , no fundo da caverna pré- histórica ou no visado arranha-céu – civilizado manteve e mantém, exígua exceção, este espírito de religiosidade que o vincula a um poder supremo ( 1932)[3].

 

A "Página Feminina" é um conjunto admirável de tudo quanto possa interessar à mulher. Organização perfeita, traz, ainda, em cada número, nunca menos de três crônicas, sendo uma de Martha Olivar, mas também não deixa de ter receitas de doces e salgados, além de um "consultório de beleza", anedotas ilustradas, dicas domésticas , enfim , tudo quanto diz respeito aos interesses femininos.

Também, percebemos que a autora busca aguçar o interesse de suas leitoras para a reflexão sobre a sua própria condição. Trazemos uma das crônicas como exemplo:

 

Está, definitivamente, morta entre nós, baianas, aquela época de dúvidas, indecisões e receios em que a mulher do Brasil, especialmente a Bahia, tinha medo de pensar alto.

De logo, seria apontadas pelos hipócritas e pelos iconoclastas das idéias feministas como uma pervertida ou leviana.

Pensar alto, sim, porque outra coisa não é escrever-se ou dizer-se tudo

Quanto o espírito não pode guardar por mais tempo no recesso do pensamento...

Pacientemente, persistentemente, a mulher vem elaborando, construindo,

Aprimorando o melhor de seus sonhos.

Retardava-se o momento de elevá-la a melhor lugar que lhe foi destinado como companheira do homem . Verdade é que não tínhamos o rosto velado como a mulher turca, mas, era pior, muito pior, tínhamos o espírito e a capacidade de vencer acorrentadas às conveniências sociais...

Os homens têm lutado sempre com egoísmo, por seus próprios interesses e convenceram que o direito de supremacia foi-lhes outorgadas incondicionalmente.

À mulher reservava a humilhante situação de bibelô ou escrava.

Daí, a revolta mal contida, o ódio secreto que vimos acalentando na esperança de uma vênia ... amigável ... fraternal...

Por que essa teimosia masculina em não querer enxergar na mulher aptidões que se podem equiparar às suas capacidades. Medo de concorrência?

Receio de perder sobre ela a força que lhe permitem desde as condições sexuais e culturais aos desportos?

 

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Como se enganam eles! Apenas quer a mulher trabalhar também por uma causa que vá além dos bebês, das meias por cerzir e das caçarolas....

 

 

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Em outro trecho, Marta Olivar insiste em mostrar que a mulher do século XX difere e muito daquela representação do século XIX:

 

Eis o que quer a mulher de nossos dias. A mulher quer já saber, quão transitórias são todas as ilusões que nos legaram a falsa educação de outros tempos e sentimentalismo que, sem querer , nossos avós plantaram em nosso coração ... E por isto mesmo é que ela já não se conforma com a leitura de “Romeu e Julieta”. Já não lhe bastam essas mentiras de absurdos platonismo que tanto mal fazem à mocidade! Conhecer a realidade relacional ,a verdade mais dolorosa, pergunta o por quê de tanta coisa, que , noutras éras, erguem a nossa inteligência a imagem da esfinge.

Clareiam-se horizontes. Soam clarins. E a mulher ri por entre lágrimas, ante os primeiros albores da vitória que não tarda...” [4].

 

Evidencia-se nessa crônica um cunho de protesto contra o imaginário masculino predominante na época bem como ela faz uma reflexão sobre a condição feminina e os papéis destinados à mulher dentro da sociedade. A escritora questiona o paradigma social imposto, mostrando outras possibilidades de abertura de caminhos para a independência econômica da mulher

Também a escritora sinaliza essa possibilidade mesmo para as mulheres que se encontram no lar, esperando que elas façam um progresso intelectual. É este o passo seguinte que se encontra nas publicações das crônicas que circulam nos anos seguintes. Estando, portanto, a pesquisa, em estágio inicial, nossa hipótese é que a jornalista e escritora continuou nessa posição nos dez anos seguintes de sua colaboração para a "Página Feminina".

 

 

 Referências Bibliográficas:

 

ALMEIDA. Maria Amélia. Feminismo na Bahia : 1931 – 1950. Salvador, 1986 (Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais).

O IMPARCIAL. Salvador, ano de 1932. Local da pesquisa: Biblioteca Pública do Estado da Bahia.



[1] Voluntária no Projeto: Resgate de Texto de escritoras baianas do século XX: percurso intelectual, estudo da produção .Coordenado pela Profª. Dr.ª Ivia Alves.

[2] Projeto financiado pelo CNPq/Nordeste 1998-2000.

[3] Fragmento da Crônica , Martha Olivar . “Jornal O IMPARCIAL .” 1932

[4] Trecho da Croniqueta : Publicada na Página Feminina – O jornal “O Imparcial” em 14 – 04 – 32